Importância da consciência do espaço em que se está e do tempo – cronológico e dramático – das cenas e do espetáculo – Por Tuany Fagundes

Parando para analisar o início, consigo pontuar o hoje. Na proposta que Fávero nos fez, de unir teatro de figuras e teatro de sombras, nada conseguia visualizar – ainda mais como sendo uma das agentes da criação (além de Fabi e do diretor).

Eu nunca tinha feito isso. Mas Fabi também não e Fávero muito menos! Ora, como pessoas tão experientes, como ela e ele, se jogam em propostas incertas? Experiência, paciência e audácia. As nossas experiências nos mostram muitas coisas que dão errado, mais do que as que dão certo. Isso poupa muito tempo de nosso futuro e devora nosso tempo presente.

Uma dieta experimental balanceada que, ao que tudo indica, nos mostrará um corpo que consegue sustentar-se por si só. Passando por fadigas, doenças, recordes e pausas. O que virá não se sabe, mas o que temos que garantir é o agora. Não é possível querer ver o espetáculo como um todo, como um corpo que anda sozinho, sem sabermos seus eixos condutores. Suas partes, suas veias, suas fragilidades, as adaptações que necessita para manter-se vivo neste mundo – no sentido criativo/subjetivo e de produção/material.

Lindas palavras, mas como isso se dá nas ações? Bom, posso falar de minha parte. Ansiedade é algo que, se você trabalha com teatro de animação, tem que ser controlada. Não à força, mas compreendida como ela opera em você para então aprender a lidar com. Ela tem que existir, mas na hora e medida certa, porque se não a loucura e estagnação são instauradas. Pensar nas cinquenta, sessenta micro cenas que têm que ser feitas, mais em suas nuances, trilha sonora, fios, figuras, locomoções, mecânicas, poéticas… AAAAHH!! Sim, você enlouquece. Só é possível visualizar um Frankstein caído e você desesperada tentando catar os pedaços. Para mim, o primeiro passo foi me dar conta de que isso não dá certo. O que dá certo? Depois de várias trocas por email, pesquisas imagéticas, leituras e releituras de roteiro(s), reelaboração de roteiro e de ações – através dos encontros presenciais e intensivos com o diretor -, conseguimos uma base de espetáculo. Uma base já bem estruturada, de melhor entendimento e visualização do todo. [Isso depois de um ano e meio de direção à distância.]

Estou agora no “segundo” passo, apreensão da “paciência criativa”. As partes do corpo que vai surgir já estão encaixadas, de leve, ainda não o fazem andar sozinho. O corpo ainda precisa de partes a serem construídas, mas como já engatamos muitas outras – no caminho diário e lento de reta “final” de criação prática -, o corpo final torna-se mais próximo e a ansiedade diminui naturalmente, uma vez que consigo ver o que está se formando e o que ainda está para se formar. As partes inexistentes não são tão desesperadoras, pois sabemos que ferramentas usar e nossa sensibilidade criativa está mais aguçada, mais instaurada em nosso irracional – treinando diariamente atenção, razão e emoção.

Importância da consciência do espaço em que se está e do tempo – cronológico e dramático – das cenas e do espetáculo

Se no teatro, teoricamente, já temos que ter uma noção espacial mais apurada, trabalhando com teatro de sombras ela tem que acontecer, literalmente, na prática. Do contrário, fios, focos de luz, silhuetas e até mesmo colega de cena podem sofrer colisões com o trem desgovernado que você pode se tornar!

De novo entram calma e a paciência, sintetizadas na palavra de ordem do diretor: “DE-VA-GAR!”. Ela reflete a base do trabalho da sombrista: temos que saber pontualmente as coisas que estão dispostas no espaço e a relação/interação que teremos com elas no decorrer da história/espetáculo. Uma vez apagada a luz, nossos olhos adaptam-se para a baixíssima luminosidade e nossos outros sentidos – tato, olfato e principalmente audição – ficam mais aflorados.

É importante ter consciência de que esse apuramento dos sentidos tem que ser treinado a cada ensaio, não apenas na “hora da apresentação”. Por isso a necessidade de ensaiar com o máximo de coisas que vão ser usadas. Imaginar como será ou fazer a “marca fria” pra criação de cenas em sombras NÃO FUNCIONA, exceto quando é exceção! Isso mesmo, fazer de conta que está fazendo a cena não é fazer a cena. Imaginar que vai estar prestando atenção não é treinar a sua atenção. Isso, para mim, é um dos pontos cruciais do teatro de sombras: você cria sim, imagens, intenções na teoria, mas como isso se dará na prática… é só na sala de ensaio. Ah, como lindas ideias tornaram-se medíocres no primeiro ou no segundo teste! Eis que vem o terceiro, o quarto e outras coisas passam a surgir, inclusive coisas novas para outras cenas, que provavelmente não viriam nas criações mentais.

No escuro, ir com calma não necessariamente é ir lentamente. Saber a hora de seguir mais rápido na troca de silhuetas ou mesmo sentir o fio preso em algum item do cenário, necessita muita calma para que a resolução do problema ocorra em cena, sem que necessite parar o que está em andamento. Aí a consciência que a sombrista deve ter do tempo dramático da história – o que ela significa pra história? É uma transição de tempo, mais ralentada, ou um ápice, mais agitado?

Isso determina como nós o solucionamos no tempo cronológico do espetáculo, ou seja, se podemos manter a imagem para o público (com um braço segurando um foco de luz ou uma silhueta) OU se olhamos para nossa colega de cena, sinalizamos que precisamos de apoio, e ela então sustenta a cena anterior à sua.

Isso é uma das orientações cruciais que aprendi, e aprendo, com Fávero: prestar atenção no espaço, para dar continuidade no que foi proposto de maneira geral, focando sua energia em vários pontos e não apenas um. O papel de Fabiana, como parceira de cena, é importantíssimo, visto que é com ela que posso contar caso algo inesperado ocorra e é a ela, também, que devo dedicar minha atenção e suporte. Mas, nada disso adianta se não tivermos autonomia na execução de cenas e na resolução de problemas. Dar apoio é diferente de sustentar a cena da outra e estar atenta a vários pontos não é estar distraída no que está se fazendo agora. Foco e precisão são a paleta onde a tinta de sombras forma fortes e belas imagens nas telas do teatro.

Tuany Fagundes – Março 2017

Reflexões sobre o processo BRUX- por Alexandre Fávero – PARTE IV – Confissão

BRUX- foto: Alexandre Fávero

Confesso que sou culpado por muito do que vai acontecer nessa história. A natureza humana é inevitavelmente injusta e convém a mim, condenado a dirigir a aventura da Diana, levar comigo outros culpados como responsáveis ou testemunhas.

Se fossemos somente nós, os inventores, os artistas, os nossos parentes e amigos, os loucos e mais alguns outros da primeira fila da plateia, seríamos poucos para dividir toda a culpa. Sendo assim, e por maldade mesmo, é que lanço a praga sobre todos. E que não falte nenhum. Rogo que todo o indivíduo, da nossa ou de outra sociedade, protagonista da boa ventura ou da barbárie, perceba profundamente a importância da diferença, encarnada no corpo dessa criança embruxada. Que cada um veja, do seu jeito e sinta como pode, os desejos, sentimentos e ódios que engrossam a manada injusta, machista, radical, preconceituosa, intolerante, superficial e violenta que amaldiçoa-nos, uns aos outros. Que apareça toda a fraqueza humana que nos faz carrascos de dia e condenados de noite, vítimas de coisas sem razão, mas com um sentido devastador. Que o obscuro seja fonte de lucidez para iluminar as bruxas e a maldição de quem as condenou. Que as sombras reflitam no espelho da alma quem é que amaldiçoa e quem é o maldito.

Alexandre Fávero

Verão de 2017